
Estou de volta. Depois de um mês viajando, recorro a um trecho perdido do Livro das Maravilhas, de Marco Polo, para relatar as cidades que visitei.
"Num pequeno vale entre as montanhas que rodeiam a cidade, algumas centenas de tendas coloridas ergueram-se do dia para a noite. Seus muros são discretos e suas defesas são apenas contra o mal que vem de fora, pois nela não há roubos, nem violência, nem morte.
Os habitantes desta cidade são jovens e de semblante feliz. Suas mulheres são quase todas lindas de rosto e corpo. Até as que não são, têm suas beleza num sorriso ou no brilho dos olhos. Esta cidade, apesar de pequena, têm seu próprio tempo, moeda, cultura e valores. As pessoas pouco dormem e não sentem fome, nem sede, nem cansaço. Todos se alimentam e bebem juntos, e as mesmas coisas. Os meninos usam saias e as meninos calçam chinelos. Não se percebe diferenças sociais ou econômicas. Todos se vêem como iguais ao outro.

Conheci um dos habitantes mais antigos desta cidade. Conhecido como John, ele me disse que esta cidade vem de outra, que vem de muitas outras. Por toda estas terras, estas cidades coloridas surgem e desaparecem como mágica. Com mais ou menos tendas, apropriando-se dos mais diferentes tidos de edifícios, ocupando os mais diferentes lugares, mas sempre com os mesmos valores e como as mesmas belezas.
John me disse que não se pode chamar as pessoas destas cidades de habitantes. Devemos chamá-los de participantes, pois todos têm alguma função, passiva e ativa ao mesmo tempo. Seus participantes revezam-se na organização, na construção e na manutenção destas cidades. O sistema político é horizontal, todos tem voz e atenção. A razão da existência e da itinerância destas cidades é discutir novas formas de se construir cidades. 'Seus participantes sente-me arquitetos. Arquitetos não pelo que constroem, mas sim pelo que sonham, pela forma como se comportam uns com os outros', me disse John, com os olhos cheios de lágrimas. A suas palavras, acrescentei que, construindo cidades como a que ele me apresentava, havia pouco a ser construído por uma pessoa. John sorriu concordando.

John me falou da elegância e da inocência dos participantes destas cidades. Falou do carinho, do respeito e da cordialidade entre todos. Falou das paixões e das amizades brotadas a cada vez que uma destas cidades surgia. Falou também da tristeza de seus participantes quando estas cidades tinham que ser desfeitas, e da saudade de uns dos outros enquanto uma nova cidade não se erguia.
John não precisava me contar nada, já que tudo isso ele transparecia nos olhos, mas eu o deixei falar, pois, era nítida sua necessidade de expressar o que ele vivia dentro dos discretos muros daquela cidade.
John contou que, assim como em qualquer outra cidade, estas cidades coloridas tinham seus problemas, mas estes nunca eram gerados pela ganância econômica ou por interesses políticos. Os problemas destas cidades eram resultado da imaturidade e da ingenuidade de seus construtores.
Cada uma destas cidades enfrenta quase sempre os mesmos problemas, umas mais do que as outras, mas todas se assemelhando em suas intenções, que é a de se construir um mundo melhor.
Não me foi permitida a entrada nesta cidade, pois eu não pertencia ao mundo de seus participantes. Não insisti porque senti que eles não me excluíam, mas sim se preservavam, por medo de algum mal que alguém de fora de seus muros pudesse lhes trazer.
Se meus olhos não viram a cidade por dentro, nos olhos de John vi que realmente aqueles muros abrigam muito mais que uma pequena estrutura urbana. John me vez sentir que há um belo exercício de busca, de experimentação, de polimento de caráter.
Vi em seus olhos amor por aquelas tendas coloridas, e por tudo o que aquelas cidades geram dentro de cada um de seus participantes. Pensei em lhe perguntar outras coisas, mas achei melhor deixá-lo voltar à sua cidade, que é o parece lhe inspirar a alma."